Aqui No Mar Não Há Moqueca

Foi revelada a actriz que irá interpretar Ariel na adaptação live-action do filme ‘A Pequena Sereia’, da Disney.

Mais que uma surpresa, esta revelação mostrou-se uma verdadeira experiência social, pois o facto da actriz escolhida ser a cantora Halle Bailey fez torcer muitos narizes. Quem conhece a artista já deverá desconfiar porque que este anúncio está a causar controvérsia, e não, não é porque Halle não é mesmo uma sereia, é porque a artista é, pasmem-se, negra.

Mal se soube que Bailey iria interpretar o papel do peixe mais sexy à face da terra, sentiu-se o chão metafórico das redes sociais a tremer e toda uma miríade de racistas a surgir para dar o seu parecer e explicarem o porquê de um ser imaginário que é metade mulher metade peixe não poder ser interpretado por uma rapariga negra.

Podemos alegar que não há racismo, podemos alegar que a tolerância já é algo enraizado na nossa sociedade, mas quando algo tão pequeno como a protagonista da pequena sereia ser negra incomoda tanta gente, gente essa que não pareceu nada indignada quando um jovem asiático foi representado por um rapaz branco em ‘O Último Airbender’, ou quando o ‘Príncipe da Pérsia’ foi interpretado por Jake Gyllenhaal ou quando uma detective japonesa foi interpretada por Scarlett Johansson em ‘Ghost in the Shell’, torna-se difícil acreditar que assim seja.

Não precisamos de visitar situações como a que aconteceu este ano no Bairro da Jamaica para perceber quão profundas são as raízes do racismo no nosso país, basta um relance no Twitter quando a Disney anuncia que vai ter uma protagonista afro-descendente na sua adaptação de ‘A Pequena Sereia’.

Ignorar o problema é parte do mesmo, principalmente quando o problema é tão óbvio. Como é possível negar esta situação? Como é possível negar o que aconteceu no Bairro da Jamaica? Como é possível negar o que acontece em inúmeros bairros em Portugal, onde a polícia entra, insulta e agride indiscriminada e inconsequentemente? Vivemos num país onde o vice-presidente do maior sindicato da PSP é despedido por admitir existir racismo e xenofobia na polícia, um país onde a comunidade negra praticamente não tem representação no parlamento, um país onde a cor da pele determina a qualidade do ensino a que tenho acesso, e ainda assim somos capazes de dizer à boca cheia que Portugal não é um país racista.

O primeiro passo para resolver um problema, é admitir que ele existe, o segundo é perceber o que podemos fazer para o ultrapassar. Se nos continuamos a recusar a dar o primeiro passo, enquanto país, enquanto instituições, enquanto indivíduos, como podemos alguma vez ambicionar uma sociedade onde a lotaria da natalidade ficou no passado?

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